Biometano já é solução para o transporte pesado, aponta estudo internacional
Instituto MBCBrasil lança estudo internacional sobre papel do biometano na descarbonização do transporte pesado
Publicação de 136 páginas reúne evidências científicas e experiências internacionais sobre biometano, mobilidade, redução de emissões e segurança energética; capítulo dedicado ao Brasil aponta oportunidades no setor sucroenergético, resíduos, transporte pesado e exportação de tecnologia
O Instituto MBCBrasil lançou na terça-feira, 8 de setembro, o estudo internacional From Waste to Wheels - Turning Organic Waste into Renewable Fuel for Transport, uma ampla revisão da literatura sobre o papel do biometano na descarbonização da mobilidade, especialmente no transporte pesado e de longa distância.
O trabalho foi desenvolvido por Glaucia Mendes Souza, da Universidade de São Paulo (USP); Clayton Barcelos Zabeu, do Instituto Mauá de Tecnologia; Heitor Cantarella, do Instituto Agronômico de Campinas (IAC); e Luiz A. Horta Nogueira, da Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI). A publicação foi encomendada pelo Instituto MBCBrasil e reúne evidências científicas, estudos técnicos e experiências de diferentes mercados.
O lançamento acontece durante o Biofuels for Decarbonization of Land Transport - Industry Hearing, realizado de 8 a 10 de setembro no Instituto Agronômico de Campinas, em Campinas (SP). O encontro internacional reúne representantes da indústria, academia e formuladores de políticas públicas para discutir biocombustíveis e estratégias de descarbonização do transporte terrestre.
Acesse o estudo completo “From Waste to Wheels”
Biometano é apresentado como solução de aplicação imediata
Uma das principais conclusões da publicação é que o biometano reúne características que o diferenciam em segmentos de difícil descarbonização: é uma tecnologia madura, pode utilizar veículos e infraestrutura de gás já disponíveis comercialmente e pode apresentar reduções significativas de emissões quando produzido a partir de resíduos e rejeitos.
O estudo destaca especialmente aplicações em caminhões pesados, transporte rodoviário de longa distância e frotas cativas, nas quais determinadas alternativas de eletrificação podem apresentar maiores limitações operacionais, de autonomia ou infraestrutura.
O biometano comprimido pode atender operações de menor distância, enquanto sua forma liquefeita, frequentemente denominada bio-LNG ou biometano liquefeito, amplia a densidade energética disponível para operações de longa distância.
Segundo a publicação, veículos pesados movidos a biometano já contam com tecnologias comercialmente disponíveis em mercados como Europa, Brasil, Estados Unidos e China.
Reduções de emissões podem chegar a 45% a 75% em relação ao diesel
Um dos pontos de maior destaque está na avaliação das emissões ao longo do ciclo de vida.
A literatura reunida pelo estudo indica que o biometano liquefeito produzido a partir de esterco ou resíduos alimentares pode reduzir entre aproximadamente 45% e 75% o impacto climático em relação ao diesel, em análises well-to-wheel.
Há situações ainda mais favoráveis.
Quando o biometano é produzido a partir de resíduos que liberariam metano diretamente para a atmosfera, como determinados sistemas de manejo de dejetos pecuários, o benefício climático pode incluir não apenas a substituição do diesel, mas também as emissões de metano evitadas.
Por isso, alguns dos trabalhos analisados chegam a apresentar cenários de emissões líquidas negativas. Um estudo citado pela publicação encontrou, em condições específicas e contabilizando o metano evitado, redução equivalente de até 246% em relação ao diesel. Esse resultado, no entanto, não deve ser generalizado: depende fortemente da matéria-prima, dos limites da análise de ciclo de vida e da forma de contabilização das emissões evitadas.
Essa diferenciação é importante.
O desempenho climático do biometano não depende apenas da molécula utilizada no veículo, mas de toda sua cadeia:
- matéria-prima → manejo anterior do resíduo → biodigestão → upgrading → perdas de metano → compressão ou liquefação → transporte → utilização no veículo.
Estudo destaca potencial global ainda pouco aproveitado
A revisão também mostra que o biometano deixou de ser uma tecnologia experimental.
Segundo os dados compilados, o combustível já é produzido em aproximadamente 40 países e utilizado no transporte em cerca de 30 mercados.
O potencial sustentável global de biogás e biometano é estimado em aproximadamente 1 trilhão de metros cúbicos por ano, volume equivalente a cerca de um quarto da atual demanda mundial por gás natural.
Apesar desse potencial, a produção permanece muito abaixo da capacidade técnica disponível, particularmente nos países emergentes.
O documento identifica três condições particularmente favoráveis nesses mercados:
- grande disponibilidade de resíduos orgânicos, crescimento da demanda energética e necessidade de melhorar os sistemas de gestão de resíduos.
Brasil recebe capítulo exclusivo no estudo
Um dos diferenciais da publicação é a existência de um capítulo dedicado exclusivamente ao Brasil.
Segundo os autores, a combinação entre produção agropecuária, agroindústria, resíduos urbanos e disponibilidade tecnológica coloca o país em uma posição especialmente favorável para ampliar rapidamente sua produção de biogás e biometano.
O estudo chama atenção para diferentes fontes:
- vinhaça e resíduos do setor sucroenergético;
- dejetos animais;
- resíduos agrícolas;
- aterros sanitários;
- resíduos sólidos urbanos;
- lodo de esgoto;
- resíduos agroindustriais.
Somente no Estado de São Paulo, a publicação cita estimativas de potencial de produção de biometano entre 8,5 bilhões e 15,5 bilhões de Nm³ por ano, considerando diferentes matérias-primas.
Setor sucroenergético pode produzir 41,4 bilhões de m³ por ano
O setor de açúcar e etanol recebe atenção especial.
Segundo a literatura reunida pelos autores, o potencial de produção de biogás no setor sucroenergético brasileiro é estimado em 41,4 bilhões de m³ por ano, enquanto menos de 2% desse potencial estaria sendo atualmente aproveitado.
A magnitude está relacionada à enorme disponibilidade de resíduos da cadeia da cana-de-açúcar.
Na safra 2024/2025, por exemplo, aproximadamente 680 milhões de toneladas de cana foram processadas no país, gerando cerca de 380 bilhões de litros de vinhaça, além de torta de filtro e outros resíduos que podem participar de sistemas de digestão anaeróbia e codigestão.
O estudo destaca ainda que aproximadamente 60 usinas de açúcar e etanol do Estado de São Paulo estão localizadas a até 20 quilômetros de gasodutos, condição que pode facilitar projetos de injeção de biometano na rede existente.
Brasil já possui exemplos em escala comercial
A publicação também mostra que essa oportunidade não está restrita às projeções teóricas.
O documento cita projetos em operação ou desenvolvimento associados a empresas como Cocal, Raízen, São Martinho e Adecoagro, demonstrando a utilização de resíduos da indústria sucroenergética para produção de biogás e biometano.
Nos aterros sanitários, o estudo destaca a instalação de Paulínia, em São Paulo, com capacidade nominal indicada de até 225 mil Nm³ de biometano por dia.
A análise também chama atenção para iniciativas envolvendo ônibus urbanos, caminhões e máquinas agrícolas movidos a gás e biometano, ampliando as possibilidades de consumo do combustível próximo aos locais de produção.
Biometano não deve ser analisado apenas pelo preço do combustível
Outro aspecto particularmente relevante do estudo é a defesa de uma visão mais ampla sobre a economia das plantas de biometano.
Segundo os autores, comparar um projeto exclusivamente pelo preço do biometano frente ao diesel ou ao gás natural pode subestimar seu valor econômico.
Uma planta pode combinar diferentes fontes de receita e benefícios:
- venda de biometano + tratamento de resíduos + digestato/biofertilizante + créditos ambientais + CO₂ renovável + garantias de origem.
A revisão aponta que, em mercados maduros, essas receitas adicionais podem representar coletivamente entre 20% e 60% da receita total de projetos de biometano.
O documento apresenta valores internacionais ilustrativos entre US$ 1 e US$ 6/GJ para serviços de tratamento de resíduos, US$ 0,5 a US$ 4/GJ para digestato e biofertilizantes, US$ 1 a US$ 8/GJ para créditos de carbono e US$ 0,5 a US$ 5/GJ para CO₂ renovável, dependendo das condições de cada mercado.
Essa abordagem reforça uma mudança importante na forma de avaliar os empreendimentos.
A planta de biometano deixa de ser apenas uma unidade de produção de combustível e passa a ser analisada como uma plataforma de economia circular capaz de produzir energia, serviços ambientais, nutrientes e carbono renovável.
Essa é, inclusive, uma das conclusões centrais do documento.
Competitividade depende fortemente da região e do modelo de negócio
O estudo também aborda o TCO - Total Cost of Ownership, ou custo total de propriedade dos veículos.
Uma análise brasileira citada na publicação aponta que, para veículos pesados, o TCO de operações com biometano pode variar entre aproximadamente 30% abaixo e 25% acima do diesel, dependendo principalmente do preço regional do combustível e das condições do projeto.
Portanto, o estudo não apresenta o biometano como automaticamente mais barato em todas as situações.
Sua competitividade depende de fatores como:
- preço do biometano, distância entre produção e consumo, escala, infraestrutura de abastecimento, utilização anual do veículo, incentivos, receitas ambientais e disponibilidade local da matéria-prima.
Ainda assim, os casos reunidos pela publicação indicam que já existem condições em que a rota alcança custos comparáveis ou inferiores ao diesel.
Segurança energética aparece como novo argumento estratégico
Além da agenda climática, o trabalho dedica atenção significativa à segurança energética.
Segundo a publicação, eventos geopolíticos recentes reforçaram a preocupação dos países com dependência de petróleo e gás importados.
Nesse contexto, o biometano possui uma característica estratégica: pode ser produzido de forma doméstica e descentralizada a partir de resíduos disponíveis no próprio território.
Os autores associam essa característica a três dimensões da segurança energética:
- independência de suprimento, maior estabilidade de preços e resiliência do sistema energético.
Para o Brasil, essa discussão ganha peso adicional quando considerada a dependência parcial das importações de diesel para atendimento ao mercado nacional.
Biometano pode ser também uma plataforma para fertilizantes e CO₂ renovável
O estudo vai além da mobilidade.
O digestato resultante da digestão anaeróbia preserva grande parte dos nutrientes originalmente presentes nas matérias-primas e pode participar de estratégias de reciclagem de nitrogênio, fósforo e potássio.
Outra possibilidade discutida é o aproveitamento da corrente de CO₂ biogênico separada durante o upgrading do biogás.
À medida que mercados de carbono renovável se desenvolvem, o estudo aponta que esse CO₂ pode se transformar em mais uma fonte de receita dos projetos.
A publicação cita ainda iniciativas brasileiras para utilização do biometano como matéria-prima energética na produção de fertilizantes de menor pegada de carbono, ampliando a integração entre os setores de bioenergia, agricultura e indústria química.
Tecnologia brasileira também pode virar produto de exportação
Uma das mensagens mais interessantes do lançamento é que a oportunidade brasileira não está restrita à produção e consumo doméstico do combustível.
O Instituto MBCBrasil destaca que o país já desenvolveu conhecimento em áreas como biodigestores, purificação de biogás, logística de biometano, bio-LNG, engenharia e integração com o agronegócio.
Na avaliação apresentada no lançamento, essa experiência pode permitir que o Brasil se consolide também como fornecedor de equipamentos, engenharia e tecnologia para outros mercados emergentes da América Latina, África e Ásia.
Para Glaucia Mendes Souza, coautora da publicação, a análise da literatura brasileira e internacional demonstra que o combustível já representa uma solução madura e que o Brasil pode ir além da produção energética, atuando também como fornecedor de tecnologia e conhecimento.
Regulação e infraestrutura continuam entre os principais desafios
Apesar do potencial identificado, o estudo também deixa claro que disponibilidade de biomassa não é suficiente para criar um mercado.
A expansão depende de:
- infraestrutura de transporte e abastecimento, financiamento, certificação, qualificação de operadores, regulação, políticas públicas e mecanismos de mercado.
Para os países emergentes, a publicação destaca ainda a importância da transferência de conhecimento, treinamento técnico, metodologias de contabilização de carbono, garantias de origem e digitalização dos sistemas.
No Brasil, essa agenda ganhou novos elementos nos últimos anos com a Lei do Combustível do Futuro, o desenvolvimento do CGOB - Certificado de Garantia de Origem de Biometano e o avanço da regulamentação da produção e comercialização do combustível.
Do resíduo à roda
O título From Waste to Wheels, em tradução livre, “Dos resíduos às rodas”, resume a principal mensagem da publicação.
O biometano permite conectar problemas normalmente tratados de maneira separada:
- resíduos orgânicos → emissões de metano → produção de energia → combustível renovável → transporte pesado → biofertilizantes → economia circular → segurança energética.
Por isso, a conclusão apresentada pelo estudo é mais ampla do que simplesmente defender a substituição de diesel por outro combustível.
Os autores propõem enxergar o biometano como uma plataforma integrada de bioeconomia circular, capaz de gerar simultaneamente valor energético, ambiental, agrícola, econômico e social.
Para o Brasil, a mensagem ganha uma dimensão especial.
O país reúne uma das maiores bases agroindustriais do mundo, enorme disponibilidade de resíduos orgânicos, experiência consolidada com biocombustíveis e um mercado de transporte pesado de grandes proporções.
Transformar essa combinação em projetos competitivos será o próximo passo.
E o estudo lançado pelo Instituto MBCBrasil reforça que, para determinadas aplicações, o biometano não deve ser tratado apenas como uma solução futura: a tecnologia, os veículos e os primeiros modelos de negócio já estão disponíveis.
Sobre o estudo
- Título: From Waste to Wheels - Turning Organic Waste into Renewable Fuel for Transport: How Biomethane Decarbonizes Mobility, Mitigates Methane Emissions and Strengthens Energy Security
- Publicação: Instituto MBCBrasil, 2026
- Autores: Glaucia Mendes Souza (USP), Clayton Barcelos Zabeu (Instituto Mauá de Tecnologia), Heitor Cantarella (Instituto Agronômico de Campinas) e Luiz A. Horta Nogueira (UNIFEI).
- Extensão: 136 páginas.
- Leia o estudo completo publicado pelo Instituto MBCBrasil
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