Do milho ao biometano: por que o Brasil não precisa apenas copiar a Alemanha
Do milho ao biometano: por que o Brasil não precisa apenas copiar a Alemanha
A Alemanha mostrou que a silagem de milho pode sustentar uma indústria de biogás. O Brasil, com milho safrinha, etanol, proteína animal e enorme diversidade de resíduos, pode construir um modelo mais integrado, flexível e competitivo.
Por Heleno Quevedo e Fábio Rubens,
Por que existem milhares de plantas de biogás na Alemanha utilizando silagem de milho enquanto o Brasil, uma das maiores potências agrícolas do mundo, ainda concentra a produção de biogás principalmente em resíduos?
A pergunta parece simples, mas abre uma discussão estratégica sobre uso da terra, segurança energética, produção de alimentos, política pública e competitividade industrial.
A experiência alemã demonstra que uma cultura agrícola pode ser organizada para abastecer biodigestores com regularidade, qualidade e elevada produtividade energética. O exemplo também mostra, entretanto, que a viabilidade dessa cadeia foi fortemente influenciada por incentivos governamentais e que, atualmente, a própria Alemanha procura reduzir a dependência das culturas plantadas especificamente para produzir energia.
O Brasil não precisa ignorar essa experiência. Também não precisa reproduzi-la exatamente.
Nossa oportunidade pode estar em utilizar a silagem de milho e outras culturas energéticas como parte de uma estratégia mais ampla: integrar lavouras, usinas de etanol de milho, confinamentos de bovinos e suínos, resíduos agroindustriais, produção de biogás, biometano e biofertilizantes.
Em vez de uma cadeia linear, baseada em plantar milho exclusivamente para produzir energia, o Brasil pode desenvolver uma agrobiorrefinaria circular, capaz de gerar combustíveis, proteína animal, fertilizantes e produtos de maior valor agregado a partir da mesma base territorial.
Por que a Alemanha colocou o milho dentro dos biodigestores?
O milho tornou-se o principal substrato energético das plantas agrícolas alemãs porque reúne características muito favoráveis à digestão anaeróbia.
A cultura apresenta elevada produção de biomassa por hectare, boa concentração de matéria orgânica, facilidade de colheita mecanizada e excelente capacidade de conservação por ensilagem. Para o operador do biodigestor, isso significa uma matéria-prima relativamente uniforme, armazenável e disponível durante todo o ano.
Em 2024, as culturas energéticas representaram aproximadamente 43% da massa alimentada nas plantas alemãs de biogás, mas responderam por cerca de 69% da contribuição energética dos substratos. Os dejetos pecuários seguiram o caminho inverso: representaram aproximadamente 48% da massa, mas somente 19% da energia. A diferença ocorre porque dejetos líquidos possuem muita água e menor concentração de matéria orgânica biodegradável.
Atualmente, aproximadamente 1,3 milhão de hectares são utilizados na Alemanha para culturas destinadas à produção de biogás e biometano. Cerca de 65% dessa área corresponde ao chamado milho energético. Ainda assim, o milho destinado ao biogás representa aproximadamente um terço de toda a área alemã cultivada com milho; a maior parte continua destinada à alimentação animal ou humana.
A produtividade média alemã da silagem de milho alcançou 44,58 toneladas de matéria fresca por hectare em 2025, considerando produto padronizado com aproximadamente 35% de matéria seca.
Segundo os parâmetros técnicos da Agência Alemã de Recursos Renováveis - FNR, um hectare produzindo entre 40 e 60 toneladas de silagem pode gerar aproximadamente 3.956 a 5.934 Nm³ de metano, equivalentes a cerca de 15 a 22,5 MWh de eletricidade em um motogerador com 38% de eficiência elétrica.
É um desempenho difícil de alcançar apenas com esterco.
O esterco deve ser biodigerido sempre que estiver disponível, sobretudo pelos benefícios ambientais. Mas criar animais apenas para transformar silagem em dejetos não seria racional: o animal utiliza grande parte da energia da alimentação para manutenção, produção de leite ou carne e geração de calor. Os nutrientes minerais permanecem nos dejetos, mas apenas uma fração da energia original da planta chega ao biodigestor.
Por isso, as plantas alemãs adotaram frequentemente a codigestão: o esterco oferece água, microrganismos, nutrientes e capacidade de tamponamento; a silagem funciona como um concentrado energético que eleva e estabiliza a produção de metano.
Quanto custa o milho energético alemão?
Os custos variam conforme região, produtividade, valor da terra, distância de transporte e estrutura da propriedade.
Como referência para o exercício agrícola 2025/2026, a Câmara de Agricultura de Schleswig-Holstein trabalha com um cenário intermediário de:
- 43 toneladas de silagem fresca por hectare;
- preço de €40 por tonelada;
- faturamento agrícola de €1.720 por hectare;
- custos variáveis de €901 por hectare;
- margem de contribuição de €819 por hectare;
- valor de referência para arrendamento de €400 por hectare.
Depois de descontado o valor atribuído à terra, sobrariam aproximadamente €419 por hectare. Esse resultado ainda precisa remunerar trabalho, capital próprio, despesas administrativas, impostos e riscos da atividade. Portanto, não deve ser confundido com lucro líquido.
Em outra referência regional de 2025, a Câmara de Agricultura da Baixa Saxônia calculou um preço de equilíbrio próximo de €24 por tonelada de silagem fresca em pé, considerando rendimento de 50 t/ha e determinadas condições de mercado. A diferença entre €24 e €40 por tonelada ilustra como o mercado alemão de silagem é regional e sensível ao custo de oportunidade das culturas concorrentes.
O milho, portanto, não é uma matéria-prima residual. Ele carrega custos de sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas, colheita, transporte, compactação, armazenamento e uso da terra.
O que permitiu que essa biomassa relativamente cara entrasse em grande escala nos biodigestores foi a existência de uma remuneração energética capaz de suportar esses custos.
O papel decisivo dos incentivos
A expansão alemã não ocorreu apenas por uma vantagem técnica do milho.
A reforma de 2004 da Lei de Energias Renováveis da Alemanha, a EEG, introduziu o chamado NaWaRo-Bonus, uma remuneração adicional para a eletricidade produzida a partir de matérias-primas renováveis cultivadas. Esse mecanismo estimulou fortemente o uso de culturas energéticas nas plantas de biogás.
Para muitos agricultores, plantar milho para uma planta própria ou próxima passou a oferecer receita mais previsível do que depender exclusivamente dos mercados de leite, carne ou grãos.
O apoio público criou escala, permitiu financiar biodigestores, motores, silos e conexões elétricas e ajudou a formar uma cadeia de fornecedores, operadores e empresas de tecnologia.
Mas também gerou efeitos colaterais: expansão regional das monoculturas, aumento dos arrendamentos, competição com produtores de leite e pressão sobre solos, águas e biodiversidade. A Agência Ambiental Alemã passou a defender maior prioridade para dejetos, resíduos e culturas que ofereçam serviços ambientais, evitando competição direta com a produção de alimentos e ração.
A Alemanha começou, então, a corrigir o desenho original.
Pelas regras atuais do EEG, as plantas que receberem apoio nos leilões de 2026, 2027 ou 2028 poderão utilizar milho e grãos em, no máximo, 25% da massa anual alimentada.
Mesmo com essa limitação, o setor ainda depende de remuneração específica. Na licitação de biomassa realizada em abril de 2026, o valor médio adjudicado foi de 18,46 centavos de euro por kWh, com propostas vencedoras entre 12,05 e 19,38 centavos por kWh.
Isso permite uma leitura importante.
Para plantas antigas, que já possuem digestores, motores, silos e conexões amortizados, continuar operando pode ser a alternativa economicamente mais racional. Para um investidor começando do zero, entretanto, repetir hoje uma planta fortemente dependente de silagem de milho seria muito mais difícil.
O modelo alemão permanece relevante, mas está em transição: menos milho, mais resíduos, maior flexibilidade elétrica e maior valorização dos atributos ambientais.
Enquanto a Alemanha produzia biogás, o Brasil reinventava o milho
A trajetória brasileira tomou outro caminho.
Durante décadas, o milho brasileiro esteve associado principalmente à alimentação humana e animal. A transformação estrutural veio com o avanço da segunda safra, historicamente chamada de “safrinha”.
A expressão tornou-se inadequada para representar sua dimensão atual.
A segunda safra é plantada, em grande parte, depois da colheita da soja. Assim, a mesma área agrícola pode produzir duas culturas comerciais no mesmo ano: soja no verão e milho na sequência. Desde a safra 2011/2012, a segunda safra de milho supera a primeira e tornou-se a principal origem do cereal brasileiro.
Na safra 2025/2026, a Conab estima produção brasileira total de 141,7 milhões de toneladas de milho. Desse volume, aproximadamente 109,4 milhões de toneladas devem vir da segunda safra.
A predominância da safrinha não significa que a produção de milho não tenha efeitos sobre preços da terra, insumos ou decisões de uso do solo. Significa, porém, que sua expansão pode ocorrer principalmente pela intensificação do calendário agrícola, aproveitando uma área já ocupada pela soja, em vez de exigir necessariamente a substituição permanente de uma cultura alimentar por uma cultura energética.
Essa característica ajudou a criar uma grande oferta de milho no Centro-Oeste, muitas vezes distante dos portos e dos principais centros consumidores de ração.
Foi nesse ambiente que o etanol de milho encontrou espaço.
Como o etanol transformou o milho do Centro-Oeste
O milho pode ser armazenado durante meses, diferentemente da cana-de-açúcar, que precisa ser processada rapidamente depois da colheita.
Essa possibilidade permite que uma usina de etanol de milho opere ao longo de praticamente todo o ano, comprando matéria-prima durante a safra e formando estoques para os meses seguintes.
A combinação entre grande oferta regional, capacidade de armazenamento, tecnologia industrial, mercado nacional de combustíveis e valorização dos coprodutos transformou o etanol de milho em uma das cadeias bioenergéticas de maior crescimento no Brasil.
Em 2025, a produção de etanol de milho e outras biomassas atingiu 9,45 bilhões de litros, correspondendo a aproximadamente 24,7% de todo o etanol produzido no País. Em 2024, essa participação havia sido de cerca de 20%, com 7,55 bilhões de litros.
A EPE registrou, em seu cenário de referência publicado em 2025, capacidade instalada para processamento de 21,9 milhões de toneladas de milho e produção de 11,6 bilhões de litros de etanol, distribuída entre 30 unidades, 19 plantas exclusivamente de milho e 11 unidades flexíveis, capazes de processar cana e milho.
Esse crescimento não ocorreu apenas porque o milho estava disponível.
O modelo tornou-se competitivo porque cada tonelada processada gera, em média:
- 420 litros de etanol;
- 212 kg de DDGS;
- 19 kg de óleo de milho.
Os números são referências médias utilizadas pela EPE; plantas tecnologicamente mais eficientes podem alcançar resultados superiores.
O DDG, o WDG e o DDGS preservam proteínas, fibras, gorduras e minerais que não foram convertidos em etanol. Esses coprodutos podem substituir parte do milho e de outros ingredientes nas dietas de bovinos, aves e suínos, conforme sua composição e formulação nutricional.
Dessa maneira, o milho não é simplesmente retirado da cadeia alimentar para produzir combustível.
Parte do amido é convertida em etanol, enquanto uma parcela relevante dos componentes nutricionais retorna à cadeia como ração. O óleo também se transforma em um produto comercial.
Essa integração ajuda a explicar por que a expansão do etanol de milho não pode ser analisada apenas como uma disputa simplificada entre “alimento ou energia”.
A cadeia passou a entregar energia e nutrição animal simultaneamente.
O próximo desafio energético das usinas
A expansão do etanol de milho cria, entretanto, uma nova demanda: energia térmica.
As usinas precisam de calor e vapor para liquefação, fermentação, destilação, evaporação e, principalmente, secagem dos coprodutos.
A EPE estima que a disponibilidade de biomassa térmica pode se tornar um ponto de atenção para a expansão do setor, sobretudo no Centro-Oeste. Em seus cenários até 2035, a empresa projeta necessidade crescente de madeira energética e chama atenção para a idade e a disponibilidade das florestas plantadas nas regiões produtoras.
É justamente nesse ponto que o biogás pode deixar de ser apenas uma solução ambiental para resíduos e passar a atuar como elemento estruturante da cadeia.
Seria possível produzir biometano brasileiro com silagem de milho?
Tecnicamente, sim.
Os rendimentos obtidos na Alemanha podem ser reproduzidos ou até superados em áreas brasileiras de alta produtividade, desde que sejam mantidas boa qualidade da silagem, elevada concentração de matéria seca, manejo adequado, controle de perdas e operação eficiente dos biodigestores.
A Embrapa já registrou sistemas capazes de produzir mais de 100 toneladas de forragem verde por hectare ao ano, considerando duas safras e condições específicas de produção. Esse número não representa uma média nacional, mas demonstra o potencial biológico e tecnológico existente.
Aplicando-se a referência alemã de aproximadamente 99 Nm³ de metano por tonelada fresca, uma lavoura brasileira com 50 toneladas de silagem por hectare poderia produzir perto de:
4.950 Nm³ de metano por hectare e por cultivo.
Com recuperação próxima de 97% no upgrading, isso representaria aproximadamente 4.800 Nm³ de biometano por hectare.
Em áreas capazes de combinar duas safras de biomassa, o potencial anual poderia ser ainda maior. Mas esse resultado não significa automaticamente que o negócio seja mais lucrativo do que vender o milho, produzir etanol ou alimentar animais.
A silagem contém muita água e precisa ser colhida, transportada e armazenada em grandes volumes. Seu raio econômico é muito menor que o do milho em grão. Além disso, ao colher a planta inteira, o sistema remove do campo mais matéria orgânica e nutrientes do que na colheita exclusiva dos grãos.
O digestato precisa, portanto, retornar às áreas agrícolas de maneira planejada. Caso contrário, a cadeia perde parte de sua circularidade e aumenta a dependência de fertilizantes externos.
Copiar a Alemanha ou construir um modelo brasileiro?
Uma planta brasileira dedicada exclusivamente à silagem poderia ser viável em locais onde coexistam:
- elevada produtividade agrícola;
- baixo custo de produção da silagem;
- área concentrada ao redor do biodigestor;
- demanda firme por gás;
- consumidor industrial próximo;
- logística estruturada para aplicação do digestato;
- contratos de longo prazo;
- valorização da redução de emissões.
Esse modelo poderia encontrar oportunidades em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Tocantins, oeste da Bahia, Minas Gerais e Paraná, principalmente em polos industriais ou agroindustriais sem acesso competitivo à rede de gás natural.
Ainda assim, copiar integralmente o modelo histórico alemão significaria abrir mão de uma das maiores vantagens brasileiras: a existência de cadeias agroindustriais já consolidadas e capazes de compartilhar matérias-primas, energia, infraestrutura e coprodutos.
A hipótese mais promissora seria outra:
Não utilizar o milho prioritariamente como combustível do biodigestor, mas utilizar o biodigestor para integrar toda a cadeia do milho.
A agrobiorrefinaria circular do milho
Nesse modelo, o milho em grão continuaria seguindo para a produção de etanol.
O etanol seria comercializado como combustível. O óleo de milho permaneceria como produto industrial. O DDG, WDG ou DDGS seria direcionado prioritariamente à alimentação de bovinos e suínos.
Os confinamentos transformariam esses coprodutos, juntamente com silagem, milho e outros ingredientes, em proteína animal.
Os dejetos dos animais, as perdas de ração, os resíduos da limpeza de grãos, as matérias-primas fora de especificação e correntes orgânicas disponíveis seriam encaminhados aos biodigestores.
Uma fração controlada de silagem poderia ser adicionada para:
- aumentar a concentração de matéria orgânica;
- estabilizar a carga do reator;
- compensar variações sazonais dos resíduos;
- garantir produção mínima de gás;
- reduzir o risco de subutilização dos equipamentos.
A silagem deixaria de ser a base exclusiva da planta e passaria a atuar como substrato regulador e reserva energética.
O fluxo seria:
milho → etanol → DDGS → proteína animal → dejetos → biogás → energia → digestato → milho.
Nesse arranjo, cada etapa preserva o produto de maior valor antes de encaminhar suas frações residuais para a recuperação energética.
O cuidado com o balanço de massa
A integração não pode contabilizar a mesma matéria orgânica duas vezes.
Nas usinas exclusivamente de milho, grande parte da fração líquida e dos solúveis é concentrada e incorporada ao DDGS. Por isso, o processo não gera uma corrente de vinhaça com as mesmas características e volumes observados nas usinas de cana-de-açúcar.
Caso uma parcela dessas correntes seja desviada para o biodigestor, poderá ocorrer aumento da produção de biogás, mas também redução da quantidade ou alteração da composição do DDGS.
A decisão deverá comparar:
- valor nutricional do coproduto;
- custo energético de sua concentração e secagem;
- preço do DDGS;
- rendimento de metano;
- demanda interna por biogás;
- capacidade do confinamento;
- valor dos ativos ambientais.
A regra central é simples:
Produtos com maior valor alimentar ou industrial não devem ser destruídos para gerar energia de menor valor, salvo quando houver uma justificativa econômica ou operacional clara.
Onde utilizar o biogás?
A primeira utilização deveria ser atender diretamente às demandas térmicas da usina.
O biogás tratado para remoção de umidade, sulfeto de hidrogênio e outros contaminantes pode substituir parte da lenha, do cavaco, do GLP, do óleo combustível ou do gás natural utilizado nas caldeiras.
Essa aplicação evita os custos adicionais do upgrading e da compressão.
A segunda possibilidade é a cogeração, produzindo eletricidade e calor para:
- moagem e armazenagem de grãos;
- fábricas de ração;
- ventilação e climatização dos confinamentos;
- bombas e agitadores;
- sistemas de tratamento;
- refrigeração;
- secagem dos coprodutos.
A terceira alternativa seria purificar apenas o excedente para produzir biometano destinado a:
- caminhões e máquinas;
- transporte de animais e grãos;
- indústrias próximas;
- mineração;
- cerâmicas;
- frigoríficos;
- redes locais;
- GNC ou BioGNL.
O biometano não precisaria ser a única finalidade do projeto. Poderia funcionar como produto de maior valor para o excedente energético.
O digestato fecha a cadeia
Depois da produção de biogás, o digestato mantém grande parte do nitrogênio, fósforo, potássio e demais nutrientes presentes nos substratos.
A Embrapa Suínos e Aves trata o digestato como um biofertilizante capaz de melhorar características físicas, químicas e biológicas do solo. A instituição também desenvolve soluções para transformar dejetos e digestatos em fertilizantes líquidos, sólidos e organominerais.
No modelo integrado, o digestato poderia ser separado em frações sólida e líquida.
A fração líquida poderia ser aplicada por fertirrigação ou equipamentos de precisão. A fração sólida poderia ser compostada, concentrada ou utilizada na produção de fertilizantes organominerais.
O benefício não deve ser calculado como se todo nutriente presente substituísse automaticamente um fertilizante mineral. É preciso considerar análise química, eficiência agronômica, época de aplicação, necessidade da cultura, perdas, armazenamento e distância de transporte.
Mesmo assim, a reciclagem dos nutrientes pode reduzir custos, diminuir a dependência externa de fertilizantes e devolver à lavoura parte do que foi retirado na colheita da silagem e dos grãos.
E a integração lavoura-pecuária-floresta?
O componente agroflorestal amplia ainda mais a lógica da biorrefinaria.
Sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta podem combinar produção agrícola, pastagens e árvores na mesma propriedade, em consórcio, sucessão ou rotação.
A floresta pode fornecer madeira, biomassa, sombra e diversificação de renda. As pastagens podem sustentar fases de cria e recria. O confinamento concentra a terminação dos animais e facilita a coleta dos dejetos.
A cadeia passa a ter várias saídas comerciais:
- soja e milho;
- etanol;
- óleo de milho;
- DDGS;
- carne bovina;
- carne suína;
- madeira;
- biogás;
- biometano;
- CO₂ biogênico;
- fertilizantes;
- ativos de descarbonização.
A vantagem não está em maximizar isoladamente a produção de um único combustível. Está em encontrar a combinação que maximize a margem do sistema completo.
Sem subsídios, mas não sem política pública
O Brasil não possui uma tarifa de eletricidade para o biogás equivalente ao modelo histórico alemão.
Isso pode obrigar os projetos a nascerem mais próximos da demanda real, buscando economia de energia, redução de custos, contratos privados e integração produtiva.
Mas dizer que a cadeia se desenvolverá completamente “sem incentivos” também seria impreciso.
O RenovaBio atribui valor à eficiência energético-ambiental dos biocombustíveis por meio dos CBIOs. Para 2026, a meta nacional compulsória foi estabelecida em 48,09 milhões de créditos.
A Lei do Combustível do Futuro criou o Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e o Certificado de Garantia de Origem do Biometano - CGOB. O programa foi regulamentado em 2025, e a ANP aprovou, em fevereiro de 2026, regras para certificação da origem do biometano, geração de lastro e emissão dos certificados.
Esses instrumentos não são iguais a uma tarifa garantida por kWh como a utilizada na Alemanha. Eles procuram criar demanda e atribuir valor ao benefício ambiental do combustível.
A vantagem brasileira poderá estar justamente em combinar esses ativos com economias internas concretas:
- redução da compra de combustível térmico;
- menor gasto com eletricidade;
- aproveitamento dos dejetos;
- menor custo de tratamento ambiental;
- substituição parcial de fertilizantes;
- produção de ração;
- diversificação comercial.
O milho é apenas o começo
A conexão com a Alemanha começa pela silagem de milho porque é o exemplo internacional mais conhecido e possui referências técnicas consolidadas.
Mas uma política brasileira de culturas energéticas para o biogás não pode se limitar ao milho.
O País possui diferentes biomas, regimes de chuva, temperaturas, solos e calendários agrícolas. Em determinadas regiões, outras culturas podem ocupar janelas de plantio nas quais o milho apresenta maior risco ou menor competitividade.
A Embrapa vem estudando biomassas como sorgo e capim-elefante para geração de biogás. Pesquisa publicada em 2025 com sorgo-energia registrou potencial bioquímico de metano de aproximadamente 296 litros normais por quilograma de sólidos voláteis para o híbrido avaliado.
O capim-elefante também é apontado como matéria-prima promissora devido à elevada produção de biomassa. A Embrapa já considera novos usos energéticos para cultivares como a BRS Capiaçu.
Outras possibilidades poderão incluir sorgos forrageiros e biomassa, gramíneas tropicais, culturas de cobertura, materiais de entressafra e espécies adaptadas a ambientes com restrição hídrica.
A cultura ideal não será necessariamente aquela que produz mais metano por tonelada.
Ela deverá apresentar a melhor combinação entre:
- produtividade por hectare;
- custo de implantação;
- rendimento de metano;
- consumo de água;
- necessidade de fertilizantes;
- capacidade de ensilagem;
- resistência climática;
- facilidade de mecanização;
- contribuição à rotação;
- distância até a planta;
- custo de oportunidade da terra.
Da cadeia linear à plataforma integrada
A Alemanha construiu uma cadeia eficiente ao ligar lavoura, silagem, biodigestor e eletricidade.
O Brasil pode partir desse aprendizado, mas sua vocação permite uma arquitetura mais ampla.
Aqui, a lavoura pode produzir soja e milho na mesma área e no mesmo ano. O milho pode produzir etanol, óleo e ingredientes para ração. Os coprodutos podem gerar carne e outros alimentos. Os dejetos e resíduos podem gerar biogás. O biogás pode sustentar as próprias demandas industriais. O digestato pode retornar à agricultura.
A silagem pode entrar no sistema não como concorrente absoluta da produção de alimentos, mas como ferramenta de estabilidade, segurança operacional e aumento controlado da produção energética.
Essa diferença é estratégica.
O futuro brasileiro pode não estar em escolher entre milho para alimento, etanol ou biogás. Pode estar em construir sistemas capazes de direcionar cada fração da biomassa para o uso de maior valor, adaptando-se aos preços e às demandas regionais.
Uma nova etapa da bioenergia brasileira
O Brasil alcançou competitividade mundial no etanol de cana-de-açúcar. Desenvolveu uma grande indústria de biodiesel. Na última década, transformou o milho safrinha em combustível, ração e desenvolvimento regional. Em 2025, o etanol de milho já representou aproximadamente um quarto da produção nacional de etanol.
O próximo passo pode ser utilizar o biogás para conectar essas cadeias.
Não apenas instalar biodigestores para tratar passivos, mas desenvolver plataformas produtivas nas quais o biogás:
- garanta energia para as agroindústrias;
- valorize resíduos;
- reduza emissões;
- produza gás renovável no interior;
- recicle nutrientes;
- aumente a competitividade da proteína animal;
- fortaleça a segurança energética regional.
A vocação brasileira para o biogás talvez não seja reproduzir as plantas alemãs baseadas em milho.
Talvez seja utilizar o conhecimento desenvolvido por elas para construir algo mais complexo e mais adequado ao nosso território:
uma agroindústria na qual o milho produz etanol; o DDGS produz proteína animal; os dejetos produzem biogás; o biogás sustenta a indústria; o digestato fertiliza a lavoura; e diferentes culturas energéticas ampliam a segurança e a produtividade do sistema.
Essa integração pode elevar o Brasil de produtor de biocombustíveis a uma verdadeira nação bioenergética, capaz de combinar energia, alimentos, fertilidade do solo e descarbonização em uma mesma estratégia de desenvolvimento.
Referências consultadas
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Etanol de milho, DDG/DDGS e energia industrial
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Biometano, RenovaBio e certificação
- AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS - ANP. Combustível do Futuro: ANP aprova resoluções para regulamentação da lei. Brasília, DF, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/canais_atendimento/imprensa/noticias-comunicados/combustivel-do-futuro-anp-aprova-duas-resolucoes-para-regulamentacao-da-lei Acesso em: 2 ago. 2026.
- AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS - ANP. RenovaBio: ANP divulga metas definitivas para as distribuidoras em 2026. Brasília, DF, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/canais_atendimento/imprensa/noticias-comunicados/renovabio-anp-divulga-metas-definitivas-para-as-distribuidoras-em-2026 Acesso em: 2 ago. 2026.
- AGÊNCIA NACIONAL DO PETRÓLEO, GÁS NATURAL E BIOCOMBUSTÍVEIS - ANP. Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e Certificado de Garantia de Origem do Biometano. Disponível em: https://www.gov.br/anp/pt-br/canais_atendimento/imprensa/noticias-comunicados/combustivel-do-futuro-anp-fara-consulta-e-audiencia-publicas-sobre-individualizacao-das-metas-de-cgob Acesso em: 2 ago. 2026.
Heleno Quevedo e Fábio Rubens são Doutores em Energia pelo Programa de Pós-graduação em Energia (PPGENE) da Universidade Federal do ABC, na área de concentração: Tecnologia, Engenharia e Modelagem.