Radar do Mercado: biometano ganha escala, infraestrutura e novos mercados no Brasil
Radar do Mercado: biometano ganha escala, infraestrutura e novos mercados no Brasil
As últimas semanas foram movimentadas para o mercado brasileiro de biogás, biometano e digestato. Mais do que novos projetos, o noticiário mostra uma mudança importante: o setor começa a avançar da discussão sobre potencial para a formação efetiva de mercado, demanda e infraestrutura.
Um dos principais sinais veio da ABiogás, que apresentou um plano com potencial para mobilizar R$ 216 bilhões em investimentos até 2035, envolvendo produção de biogás e biometano, transporte, geração de energia, fertilizantes e novas aplicações. A agenda reforça a expectativa de forte expansão do setor ao longo da próxima década.
Biometano acelera no transporte pesado
Foi justamente no transporte que algumas das notícias mais relevantes apareceram. Em Uberlândia (MG) entrou em operação um novo hub de abastecimento de gás natural e biometano, ampliando a infraestrutura disponível para caminhões no corredor entre Minas Gerais, Goiás e o Sudeste.
A região também começou a integrar biometano e ferrovia na logística do açúcar. Caminhões abastecidos com combustível renovável transportam a produção até Uberaba, onde a carga segue de trem até o Porto de Santos.
Ao mesmo tempo, grandes transportadoras ampliam suas apostas. A gaúcha Reiter Log anunciou a aquisição de 220 caminhões a gás, reforçando uma frota que já utiliza a tecnologia em operações de longa distância.
No Paraná, Compagas e Cia Verde avançam na implantação de um ponto dedicado de abastecimento para caminhões em Araucária. Em São Paulo, a Ultragaz inaugurou em Paulínia sua primeira estação própria de biometano, voltada inicialmente para suas operações logísticas.
O movimento indica que o biometano começa a deixar os projetos demonstrativos para entrar na estratégia operacional de grandes frotas.
Indústria amplia a demanda
A demanda industrial também continua avançando.
A Unilever anunciou a adoção de biometano em sua fábrica de Aguaí (SP), substituindo combustível fóssil na geração de energia térmica da unidade. Outras comercializadoras e distribuidoras também relatam crescimento na carteira de clientes e novos projetos de conexão de plantas produtoras às redes de gás.
A tendência mostra que indústria e transporte podem crescer simultaneamente como dois dos principais mercados consumidores do biometano brasileiro.
Novas regras chegam em momento decisivo
O avanço físico do mercado ocorre junto com mudanças regulatórias.
A ANP aprovou novas regras para especificação e controle da qualidade do biometano, buscando harmonizar os requisitos aplicáveis às diferentes matérias-primas utilizadas na produção.
Outro tema acompanhado de perto pelo setor é o Certificado de Garantia de Origem do Biometano - CGOB, instrumento criado para rastrear e comprovar os atributos renováveis do combustível.
Com o início de sua operacionalização, o mercado poderá incorporar uma nova camada de valor associada à origem e à redução de emissões do biometano.
Resíduos urbanos e agro também avançam
No Rio Grande do Sul, a Solví inaugurou uma nova usina de biometano em São Leopoldo, ampliando o aproveitamento energético do biogás gerado em aterro sanitário.
No agro, diferentes iniciativas mostram o potencial da biodigestão para tratar dejetos, gerar energia e produzir fertilizantes.
Projetos ligados à suinocultura no Paraná e no Rio Grande do Sul reforçam uma tendência importante: em regiões com produção agropecuária dispersa, cooperativas e plantas compartilhadas podem ser fundamentais para atingir escala econômica.
Digestato começa a ganhar protagonismo
Outro movimento merece atenção nas últimas semanas: o digestato começa a aparecer com mais frequência como produto econômico da cadeia do biogás.
Recuperação de nitrogênio, fósforo e potássio, produção de biofertilizantes e fertilizantes organominerais começam a integrar as estratégias de novos projetos.
Isso amplia a lógica econômica da digestão anaeróbia.
Em vez de pensar somente em: resíduo → biogás
o mercado começa a estruturar:
resíduo → biogás + biometano + nutrientes + atributos ambientais.
Um mercado cada vez mais conectado
O principal sinal das últimas semanas não está em uma notícia isolada.
Está na conexão entre elas.
Novas plantas precisam de consumidores. Frotas precisam de postos. Postos precisam de demanda previsível. Empresas precisam de contratos e regras claras. E projetos precisam encontrar valor não apenas no gás, mas também nos nutrientes e nos benefícios ambientais.
O Radar do Mercado mostra que esses elos começam a se aproximar.
O Brasil continua possuindo um enorme potencial de produção de biogás e biometano. A diferença é que, pouco a pouco, o mercado começa a construir a infraestrutura, os contratos e os consumidores necessários para transformar esse potencial em negócios reais.