Tudo pronto para amanhã: ABREN revela os bastidores do 7º Fórum
Entrevista Exclusiva: O Futuro da Recuperação Energética dos Resíduos no Brasil com Yuri Schmitke (ABREN)
A gestão de resíduos sólidos no Brasil está mudando de patamar. O que antes era tratado estritamente como um passivo ambiental, hoje se consolida como uma peça-chave para a segurança energética, a competitividade industrial e a descarbonização da nossa economia.
Mas o que falta para o país destravar de vez esse mercado bilionário e seguir o exemplo das centenas de usinas que já operam na Europa e na Ásia?
Para entender os bastidores dessa transição e mapear as oportunidades reais de investimento, o Portal Energia e Biogás conversou com Yuri Schmitke, presidente-executivo da Associação Brasileira de Energia de Resíduos (ABREN).
Às vésperas do 7º Fórum de Energia de Resíduos, um evento estruturado não apenas para o debate, mas como um verdadeiro motor de rodadas de negócios (B2B), Schmitke abre o jogo sobre o cenário atual. Na entrevista a seguir, ele detalha como novos marcos legais (como o Programa Nacional do Metano Zero) estão moldando o setor, desmistifica a falsa concorrência entre o biogás e os tratamentos térmicos (Waste-to-Energy), e deixa um recado claro para prefeitos, engenheiros e investidores: o setor saiu da fase de expectativa e entrou na era da execução.
Confira a entrevista completa e descubra como transformar o desafio dos resíduos urbanos em um ativo econômico de alto valor para o Brasil.
1. O setor de recuperação energética no Brasil vive um momento de transição frente ao Marco Legal do Saneamento. Na sua visão, qual é o principal gargalo de mercado ou regulatório que o 7º Fórum busca ajudar a destravar este ano?
Yuri Schmitke (ABREN): A gestão de resíduos sólidos deixou de ser apenas uma pauta ambiental e passou a integrar a agenda de segurança energética, competitividade industrial e descarbonização da economia. O Brasil gerou 81,2 milhões de toneladas de resíduos urbanos em 2024 e 40,3% desse volume ainda teve destinação inadequada, segundo dados do SINIR/MMA. O desafio é transformar esse passivo em ativo econômico.
O país possui um dos maiores potenciais do mundo para produção de biogás (84,6 bilhões de Nm³ por ano), mas aproveita apenas cerca de 5,6% desse volume. No biometano, a situação é ainda mais desafiadora: a produção corresponde a aproximadamente 1,5% do potencial nacional, estimado em 44,1 bilhões de Nm³ anuais. Esse cenário demonstra o enorme espaço para expansão de investimentos em biodigestão, purificação de biogás e infraestrutura de distribuição.
Outro eixo estratégico é a recuperação energética dos resíduos sólidos urbanos, onde o atraso é maior: há mais de 3 mil usinas no mundo — 1.100 na China e 500 na Europa — e nenhuma operando comercialmente no Brasil. Já são cinco contratadas, cerca de 400 MW em desenvolvimento e pipeline superior a R$ 7 bilhões. O gargalo não é tecnológico: é contratual e regulatório.
O biometano também será central na descarbonização do transporte pesado, substituindo o diesel em caminhões e frotas de longa distância. O CNPE fixou em 0,5% a meta do primeiro ano do mandato do biometano; nossos cálculos indicam capacidade para 1%, e defendemos a retificação ainda este ano.
Nesse contexto, o Projeto de Lei nº 3.311/2025, que institui o Programa Nacional do Metano Zero — aprovado na CAE do Senado em 7 de julho e incluído no PLANTE —, representa uma oportunidade histórica. Integra a política de resíduos à produção de energia renovável, fortalece a biodigestão e a recuperação energética, cria instrumentos de valorização do metano evitado e dá segurança jurídica aos investimentos. Somado ao CGOB, em vigor desde 2026, ao Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), que entra em 2027, e a políticas adequadas de contratação, permitirá ao Brasil transformar um passivo ambiental em vetor de desenvolvimento e liderança na economia circular de baixo carbono.
2. Olhando para a programação, quais painéis ou discussões você considera divisores de águas para gestores e investidores que estão estruturando novos projetos hoje?
Yuri Schmitke (ABREN): A programação foi desenhada para cobrir todos os grandes desafios do setor de energia de resíduos, sem deixar lacunas, e com curadoria criteriosa de participantes: são os melhores especialistas de cada tema em cada painel.
Falando especificamente sobre os painéis indicados para quem está estruturando projeto hoje, destaco três. O Painel 1, no primeiro dia de evento (30.07), terá a participação da CAIXA, da SUPEN - Governo do Estado do Paraná, da Bazico Tecnologia, da PlanET Brasil, da EBP Brasil e do grupo Mulheres do Biogás na discussão sobre regulação, planejamento e desenvolvimento do setor, o que dá ao gestor público a chance de entender de que forma o financiamento pode ser acessado.
O Painel 3, também no dia 30, sobre tecnologias e modelos de negócio em Waste-to-Energy, traz Antonio Bolognesi, presidente do Conselho da ABREN, ao lado da P-WAVE AG, da Power Service Solutions, da WasteAI e da ATMOSPLAN. É a discussão de como fazer e de que forma estruturar arranjo contratual, escala mínima viável, curva de CAPEX e o que efetivamente está sendo executado hoje na Europa e pode ser replicado aqui.
O Painel 6, no segundo dia de evento (31.07), abordará infraestrutura, financiamento e comercialização de biometano. É o painel mais direto ao ponto para investidores. Reúne Energisa, INNX, Redivivus, Gás Orgânico e o MCTI e cobre desde o off-take até a conexão com a rede, que é onde a maioria dos projetos de biometano ainda trava: são 59 unidades cadastradas na ANP e apenas 19 autorizadas a comercializar.
Mas o verdadeiro divisor de águas está fora do auditório: são as mais de 120 reuniões B2B estruturadas, com mais de 20 investidores e instituições financeiras e representações de mais de 12 países, em parceria com a Apex-Brasil. O Fórum é business-first por escolha: painel gera entendimento, rodada de negócio gera projeto.
3. A ABREN tem uma atuação fundamental junto aos formuladores de políticas públicas. Quais são as expectativas reais da associação para a inclusão de projetos de WTE nos próximos leilões de energia ou na atração de novos incentivos governamentais?
Yuri Schmitke (ABREN): Nossa expectativa é que a recuperação energética seja tratada como o que de fato é: geração firme e despachável, com atributo ambiental adicional de mitigação do metano — gás com potencial de aquecimento até 81 vezes maior que o do CO₂ em 20 anos (IPCC/AR6). Trabalhamos para que o WtE tenha espaço nos leilões de reserva de capacidade e de energia nova, com critérios que reconheçam esse duplo benefício. O PLANARES já fixou a meta de 994 MW em usinas de recuperação energética até 2040 — 14,6% dos resíduos do país e cerca de R$ 54,7 bilhões em investimento —, além de 252 MW em biogás de aterros e 69 MW em biodigestão. Porém, meta sem instrumento de contratação não se cumpre.
A frente mais promissora hoje é o Projeto de Lei nº 3.311/2025, que recebeu contribuições técnicas da ABREN. O texto foi aprovado na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado em 7 de julho e segue para a Comissão de Meio Ambiente. Cria instrumentos de valorização do metano evitado e dá segurança jurídica ao investimento. Nossa estimativa é que possa ser aprovado ainda neste ano, dada a urgência do tema.
Somando o aproveitamento do biogás agropecuário ao aproveitamento energético dos resíduos sólidos urbanos, falamos de um potencial da ordem de R$ 500 bilhões em investimentos. Não é um número aspiracional: é o que está paralisado por falta de sinal de contratação de longo prazo. E a equação econômica muda em 2027, com o SBCE: projetos hoje marginais passam a ter receita adicional pela mitigação de emissões — e uma URE evita de 6 a 8 vezes mais emissões do que a destinação em aterro.
4. Sabemos que a estruturação financeira é um desafio devido ao CAPEX das plantas. Como a ABREN tem dialogado com bancos de fomento e o mercado de capitais para viabilizar essas operações, especialmente em consórcios intermunicipais?
Yuri Schmitke (ABREN): O CAPEX é alto, mas ele não é o problema em si. O principal desafio é a bancabilidade da receita que vai pagá-lo. O financiador só se compromete quando enxerga duas garantias: uma concessão que remunere o custo da destinação final do resíduo — o gate fee, com volume contratado e contraparte pública com capacidade de pagamento comprovada — e um contrato de venda de energia de longo prazo. Nossa atuação junto a bancos de fomento, agências multilaterais e mercado de capitais tem sido menos sobre pedir crédito e mais sobre construir esse pacote contratual padrão, que é o que permite escalar.
Os consórcios intermunicipais são a chave da escala — e escala reduz custo: uma usina de 5 mil toneladas por dia corta o CAPEX específico entre 30% e 40% e o OPEX (Gate Fee) em até quatro vezes. Isoladamente, a maioria dos municípios não gera volume suficiente para viabilizar uma URE; regionalizados, viabilizam — e a regionalização é diretriz do próprio Marco Legal do Saneamento. O desafio é dar ao consórcio a solidez de contraparte que o mercado exige: contrato de programa robusto, garantia vinculada à arrecadação da taxa de resíduos e regulação por ente independente. O Paraná está à frente nesse desenho, e não por acaso o diretor do regulador estadual de saneamento, Rogel Barbosa, participará de dois painéis.
Debêntures incentivadas de infraestrutura, o Fundo Clima, os créditos do mercado regulado de carbono e o financiamento climático internacional compõem o restante — e a Taxonomia Sustentável Brasileira, prevista para 2027, deve ampliar o acesso a crédito diferenciado. O Fórum reserva espaço para reuniões privativas com instituições financeiras porque essa conversa é caso a caso.
5. Para o nosso público especialista em digestão anaeróbia, a integração de soluções é um tema central. Como a ABREN enxerga a complementaridade técnica e econômica entre as rotas de tratamento térmico (incineração/gaseificação) e as rotas biológicas (biogás/biometano) na gestão integrada de RSU?
Yuri Schmitke (ABREN): Essa pergunta precisa ser respondida com clareza, porque o debate foi capturado por uma falsa oposição. Não existe competição entre digestão anaeróbia e tratamento térmico: existe sequência, e ela está escrita na hierarquia da Política Nacional de Resíduos Sólidos. A fração orgânica úmida segregada é da rota biológica — biodigestão, biometano e digestato como fertilizante. É também a rota de maior intensidade de descarbonização: pode alcançar emissões negativas de até 1.500 gCO₂eq, razão pela qual defendemos que o CGOB diferencie a matéria-prima de origem. O rejeito seco, de alto poder calorífico, para o qual não há rota de reciclagem viável, é da rota térmica. São correntes de resíduo diferentes, com propriedades físico-químicas diferentes.
A complementaridade também é econômica e de escala. A digestão anaeróbia é modular e viabiliza-se de forma descentralizada, inclusive em plantas rurais e industriais de pequeno porte — o Brasil chegou a 1.803 plantas de biogás em 2025, com 37% da produção vinda de resíduos agroindustriais. O WtE exige escala urbana e contrato regional, e entrega energia firme e base de calor. Uma rota não substitui a outra; juntas, com reciclagem e compostagem, é que fecham o balanço de massa de um município.
A cargo de exemplo, a Alemanha opera cerca de 100 usinas de recuperação energética com taxa de reciclagem e compostagem próxima de 69% e envia menos de 1% dos resíduos para aterro. O mesmo padrão se repete em Áustria, Bélgica, Suécia, Suíça, Finlândia e Dinamarca: quem mais recicla na Europa é quem mais recupera energia.
Entendemos que a gaseificação funciona adequadamente apenas com resíduos homogêneos (mesma característica físico-química), como resíduos da indústria ou biomassa. Essa rota pode produzir biometano, SAF, hidrogênio, energia elétrica ou térmica. É uma rota promissora, mas que ainda não atingiu escala comercial em sua grande maioria de unidades existentes.
O 7º Fórum ABREN de Energia de Resíduos reflete isso na programação. O Painel 3 trata das tecnologias térmicas, o Painel 5 trata do tratamento de resíduos líquidos e sólidos orgânicos para biogás, biometano e fertilizantes; o Painel 7 discute CDR, SAF e novas rotas de biocombustíveis a partir de resíduos, que é exatamente a ponte técnica entre os dois mundos. Colocamos os três no mesmo evento de propósito, para enriquecer esse debate.
6. Qual é a principal mensagem que você espera que os prefeitos, investidores e engenheiros levem para casa ao final deste 7º Fórum?
Yuri Schmitke (ABREN): Para os prefeitos: resíduo não é despesa, é ativo — mas só se torna um ativo de fato com decisão de gestão. O Brasil gera 81,2 milhões de toneladas de resíduos urbanos por ano, 384 kg por habitante, e 40,3% desse total ainda tem destinação inadequada. A tecnologia existe, o capital existe e os fornecedores estão nesse fórum. O que falta é instituir a cobrança, consorciar-se com os vizinhos e assinar contrato de longo prazo. Aterro Zero não é slogan, é uma decisão administrativa que começa com planejamento.
Para os investidores: o setor saiu da fase de expectativa e entrou na fase de execução. Temos cinco usinas contratadas, a primeira em Barueri, com operação comercial prevista para 2027, um pipeline superior a R$ 7 bilhões e um potencial mapeado pela ABREN de 130 usinas, 3,3 GW e R$ 181 bilhões em investimentos. Quem entrar agora sairá na frente e participará da formação do mercado, não da disputa por um mercado já consolidado.
E para os engenheiros: a resposta certa nunca vai ser uma tecnologia só. Quem chegar ao município com uma solução única vai errar o diagnóstico. O caminho é a gestão integrada — coleta seletiva, reciclagem, compostagem, biodigestão, recuperação energética do rejeito e aterro apenas para o que sobra. Se todo mundo sair de Curitiba comprometido com essa agenda, o Fórum terá cumprido seu papel.
Serviço:
- O que é: 7º Fórum de Energia de Resíduos (7ºFórum ABREN) realizado em conjunto com a Feira Reciclação e o Fórum GD Sul
- Quando acontece: 30 e 31 de julho de 2026
- Onde acontece: Centro de Eventos Positivo - Barigui, Curitiba / PR
- Como participar / contato: contato@abren.org.br| eventos@grupofrg.com.br| (41) 99274-1996
- Site oficial: https://abren.org.br/7-forum-de-energia-de-residuos/