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Do biodigestor à Feira de Ciências

E se um biodigestor pudesse revelar o próximo jovem cientista? Descubra como o biogás transforma resíduos em investigação, conecta disciplinas e pode levar projetos escolares à FEBRACE, MOSTRATEC e outras Feiras de Ciências. Confira novo episódio da série Sábados de Biogás & Educação.

Heleno Quevedo
Heleno Quevedo
Publicado em 08 de ago, 2026
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Autor responsável: Heleno Quevedo
Do biodigestor à Feira de Ciências
Foto: Elementary school students with projects at science fair, por Hero Images. Licenciada para o Canva PRO - Assinatura PRO do Portal Energia e Biogás.

EP 24 - Do biodigestor à Feira de Ciências: quando o biogás transforma alunos em pesquisadores

Um biodigestor escolar pode ser muito mais que uma solução ambiental: pode se tornar um laboratório vivo para investigar resíduos, energia, microbiologia, matemática, engenharia e economia circular

 

Sejam bem-vindos a mais um episódio da série Sábados de Biogás & Educação, do Portal Energia e Biogás.

No episódio anterior, EP 23 - Da merenda à energia: a escola circular movida a biogás, mostramos como resíduos da alimentação escolar podem deixar de ser apenas um problema de descarte e entrar em um ciclo de aproveitamento que conecta biodigestor, produção de biogás, biofertilizante, horta, cozinha e educação.

Mas essa escola circular pode produzir algo ainda mais valioso.

Perguntas:

  • Quanto resíduo orgânico nossa escola gera por semana?
  • Por que a produção de biogás pode variar ao longo do tempo?
  • Como podemos transformar os dados do biodigestor em gráficos?
  • Qual é a relação entre resíduos, microrganismos, energia e nutrientes?
  • Quanto material orgânico pode deixar de seguir para a coleta convencional?
  • Como podemos comunicar os resultados para outras pessoas?

Quando um estudante começa a fazer perguntas como essas, algo importante acontece: o biodigestor deixa de ser somente um equipamento e passa a ser também um objeto de investigação científica.

É exatamente esse o convite deste episódio.

E se o biodigestor da escola se transformasse no ponto de partida para um projeto de Feira de Ciências?

 

Toda pesquisa começa com uma pergunta

No EP 03 - Biogás em Ação: Experiências Práticas para Alunos Curiosos, destacamos como atividades práticas podem aproximar os estudantes de conceitos relacionados à energia, sustentabilidade, resíduos e digestão anaeróbia.

Agora podemos avançar um pouco mais.

A atividade prática pode se transformar em investigação.

Em vez de apenas observar que determinado fenômeno ocorre, o estudante pode perguntar por que ele ocorre, como pode ser medido e quais fatores estão associados ao resultado.

Essa mudança parece simples, mas representa um passo fundamental na formação científica.

Um projeto pode começar com uma observação cotidiana.

Por exemplo:

  • Observação: a quantidade de resíduos da merenda varia ao longo da semana.

A partir dela surge uma pergunta:

  • Pergunta de pesquisa: quais dias apresentam maior geração de resíduos orgânicos na escola?

Depois surge uma hipótese:

  • Hipótese: determinados cardápios podem estar associados a diferentes quantidades de resíduos.

Em seguida vêm a coleta dos dados, a organização das informações, a construção de gráficos, a análise e, finalmente, a apresentação dos resultados.

O mais interessante é que nem toda pesquisa escolar sobre biogás precisa começar estudando diretamente o gás.

Ela pode começar estudando o sistema do qual o biogás faz parte:

  • Resíduos
  • Alimentação
  • Microbiologia
  • Energia
  • Agricultura
  • Mudanças climáticas
  • Matemática
  • Comportamento
  • Economia circular

São inúmeras portas de entrada para a ciência.

 

O biodigestor como laboratório científico

No EP 08 - Biodigestor Laboratório de Ensino, apresentamos o biodigestor como uma ferramenta capaz de conectar teoria e prática e integrar diferentes disciplinas.

Naquele episódio, mostramos que Matemática pode trabalhar cálculos e gráficos; Ciências pode explorar digestão anaeróbia; Geografia pode discutir fontes renováveis e sustentabilidade; e Língua Portuguesa pode participar por meio da comunicação dos resultados.

Agora podemos acrescentar uma nova dimensão:

o biodigestor também pode ser um laboratório de iniciação científica.

Isso acontece porque ao redor dele existem fenômenos que podem ser observados, registrados e interpretados ao longo do tempo.

Uma escola pode, por exemplo, acompanhar:

  • a quantidade de resíduos orgânicos gerados;
  • a quantidade destinada ao sistema;
  • a composição geral desses resíduos;
  • variações ao longo das semanas;
  • temperatura ambiente;
  • produção e utilização do biogás, quando houver instrumentação apropriada;
  • geração de biofertilizante;
  • utilização do biofertilizante na horta;
  • redução da massa de resíduos destinada à coleta;
  • indicadores ambientais relacionados ao projeto.

O objetivo educacional não é transformar estudantes em operadores de biodigestores.

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Foto: Kit didático simples para mensurar a produção de biogás. Arquivo pessoal HQL.

 

É transformar o processo existente na escola em uma fonte organizada de perguntas, dados e conhecimento.

A operação de equipamentos, o manejo do biogás e qualquer atividade envolvendo riscos físicos, químicos ou biológicos devem permanecer sob responsabilidade de pessoas devidamente capacitadas e dentro das práticas de segurança da instituição.

Essa separação é importante: o aluno pode participar intensamente da investigação científica sem precisar ser exposto aos riscos operacionais do sistema.

 

Primeiro observe e depois pergunte

Um dos aprendizados mais importantes da iniciação científica é perceber que boas pesquisas não começam necessariamente com equipamentos sofisticados.

Elas começam com boas perguntas.

Imagine que os estudantes observem que a escola produz diferentes quantidades de restos de alimentos durante a semana.

Isso pode gerar diversos projetos:

  • Projeto 1 - Quanto resíduo nossa escola gera?
    • Os alunos registram os dados e analisam a geração diária e semanal.
  • Projeto 2 - Como reduzir o desperdício da merenda?
    • Os estudantes investigam padrões e discutem estratégias de prevenção.
  • Projeto 3 - Quanto resíduo poderia ser valorizado?
    • O grupo analisa qual fração do material orgânico pode integrar processos como biodigestão ou compostagem.
  • Projeto 4 - O biodigestor mudou a gestão de resíduos da escola?
    • É possível comparar indicadores antes e depois da implantação do projeto.
  • Projeto 5 - Como comunicar a economia circular?
    • Os próprios estudantes podem investigar qual estratégia de comunicação consegue ampliar a participação da comunidade escolar na separação correta dos resíduos.

Perceba que, a partir de um único biodigestor, surgem perguntas envolvendo Ciências da Natureza, Ciências Humanas, Matemática, Engenharia e Comunicação.

É justamente essa interdisciplinaridade que torna o biogás um tema tão rico para a educação.

 

Matemática também entra no biodigestor

Os dados coletados podem transformar o projeto de biogás em uma verdadeira aula de Matemática aplicada.

  • Massa de resíduos por dia
  • Médias semanais
  • Percentuais
  • Comparação entre turmas ou períodos
  • Construção de tabelas
  • Gráficos de barras
  • Séries temporais
  • Taxas de redução
  • Projeções anuais

Aqui encontramos uma oportunidade importante.

Muitos estudantes perguntam:

“Onde vou utilizar isso que estou aprendendo?”

Um projeto real pode ajudar a responder.

A média deixa de ser somente um exercício do livro quando serve para determinar quanto resíduo a escola gera.

A porcentagem ganha outro significado quando representa a parcela dos resíduos que deixou de ser descartada.

O gráfico deixa de ser apenas uma figura quando permite identificar uma tendência.

A matemática passa a ajudar o estudante a interpretar a realidade.

 

Biologia: enxergando um mundo que não podemos ver

No EP 14 - Como a microbiologia e a biotecnologia transformam resíduos em energia?, entramos no universo dos microrganismos envolvidos nos processos de digestão anaeróbia.

Esse conhecimento pode gerar excelentes perguntas para projetos científicos.

  • Por que a matéria orgânica se transforma?
  • Qual é o papel dos microrganismos?
  • Por que diferentes condições ambientais afetam os processos biológicos?
  • Qual é a relação entre matéria orgânica, carbono e energia?
  • Como os nutrientes circulam entre alimento, resíduos, digestato, solo e plantas?

O biodigestor apresenta aos estudantes algo fascinante:

Grande parte da transformação que está ocorrendo não pode ser observada diretamente a olho nu.

É preciso utilizar conhecimento científico para interpretar o processo.

Isso abre espaço para aulas sobre microbiologia, metabolismo, ecologia microbiana, ciclos biogeoquímicos e biotecnologia.

O aluno começa observando um resíduo alimentar.

Mas, ao investigar o que ocorre com aquele material, pode chegar aos fundamentos de uma das áreas mais importantes da bioeconomia contemporânea.

 

Engenharia começa quando alguém pergunta: “Como podemos melhorar?”

Ciência e engenharia estão profundamente conectadas, mas fazem perguntas um pouco diferentes.

Enquanto a investigação científica procura compreender fenômenos, a engenharia frequentemente pergunta:

Como podemos resolver esse problema?

No EP 09 - Aprenda a Projetar Biodigestor com Softwares 3D, mostramos como ferramentas de modelagem podem aproximar estudantes do desenvolvimento tecnológico.

Naquele episódio, discutimos como desenhos e modelos digitais podem estimular pensamento espacial, criatividade, resolução de problemas e compreensão de sistemas.

Posteriormente, no EP 12 - Explorando Reatores Anaeróbios com Simulação Computacional CFD, fomos ainda mais longe e mostramos como ferramentas computacionais utilizadas na engenharia permitem estudar o comportamento dos fluidos dentro dos reatores.

Existe, portanto, uma trajetória educacional muito interessante:

observar → perguntar → desenhar → modelar → medir → analisar → propor melhorias.

Um aluno pode começar desenhando conceitualmente um sistema.

Depois pode criar uma representação digital.

Em níveis mais avançados, pode estudar fenômenos físicos, matemáticos ou computacionais relacionados ao processo.

É assim que uma atividade aparentemente simples começa a aproximar o estudante da engenharia.

 

Do caderno para a Feira de Ciências

Aqui chegamos a um ponto central deste episódio.

Uma investigação desenvolvida dentro da escola não precisa permanecer restrita à sala de aula.

Ela pode virar um projeto para uma Feira de Ciências.

E o Brasil possui importantes ambientes dedicados justamente a valorizar estudantes pesquisadores.

a) FEBRACE - Feira Brasileira de Ciências e Engenharia

Uma das principais referências nacionais é a FEBRACE - Feira Brasileira de Ciências e Engenharia, promovida pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo e realizada pelo LSI-TEC.

Desde 2003, a FEBRACE reúne projetos científicos e tecnológicos desenvolvidos por estudantes de diferentes regiões do Brasil e busca estimular cultura científica, investigação, inovação e empreendedorismo na educação básica e técnica.

Para participar, os estudantes desenvolvem projetos utilizando metodologia científica ou metodologia de engenharia e organizam documentos como plano de pesquisa, diário de bordo, relatório e resumo.

Os projetos são avaliados considerando aspectos como criatividade, inovação, conhecimento científico, pesquisa bibliográfica, metodologia, análise dos dados e clareza na apresentação.

E existe um detalhe especialmente oportuno para professores e estudantes que estão lendo este episódio agora:

as inscrições de projetos para a FEBRACE 2027 já estão abertas.

O calendário oficial informa abertura das inscrições em 22 de junho de 2026, com prazo previsto para envio completo dos projetos até 20 de outubro de 2026. A Mostra de Finalistas está programada para março de 2027.

 

 

  • Talvez aquele projeto que começou medindo os resíduos da merenda possa crescer.
  • Talvez possa se transformar em uma investigação.
  • E talvez essa investigação possa chegar à USP.

 

b) MOSTRATEC: um mundo de criatividade e pesquisa

Outra grande referência é a MOSTRATEC - Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia, realizada anualmente pela Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha, em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul.

A feira recebe projetos desenvolvidos por jovens pesquisadores desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, incluindo a Educação Profissional Técnica.

Entre seus objetivos está justamente despertar o interesse dos estudantes pelo desenvolvimento de projetos de iniciação científica e tecnológica.

A dimensão do evento mostra onde um projeto escolar pode chegar.

A organização informa participação de mais de 20 países e centenas de projetos de pesquisa, formando um grande ambiente de encontro entre estudantes, professores, pesquisadores, profissionais e comunidade.

 

 

A MOSTRATEC 2026 será realizada presencialmente de 26 a 30 de outubro, em Novo Hamburgo.

Agora imagine estudantes apresentando nesse ambiente perguntas como:

  • Quanto resíduo alimentar nossa escola consegue recuperar?
  • Quais indicadores podem demonstrar os benefícios de um biodigestor escolar?
  • Como integrar biodigestão, horta e educação ambiental?
  • Como utilizar dados para avaliar uma escola circular?

Biogás é energia.

Mas também pode ser ciência.

 

c) Das feiras escolares para grandes mostras científicas

Existe ainda outro aspecto importante.

Nem todo projeto precisa começar buscando uma grande feira nacional.

A própria escola pode criar sua mostra científica.

  • Uma turma apresenta para outra.
  • Depois o projeto participa de uma feira municipal.
  • Em seguida, pode avançar para uma feira regional ou estadual.

Existem inclusive redes de feiras afiliadas que ajudam a construir essa trajetória.

A FEBRACE mantém uma rede nacional de feiras afiliadas, que inclui mostras promovidas por escolas, universidades, institutos e outras organizações. Para a afiliação, são consideradas feiras que apresentem projetos desenvolvidos com metodologia científica e clara demonstração de processo investigativo.

A MOSTRATEC também possui uma rede de feiras afiliadas, criando caminhos para que projetos desenvolvidos localmente cheguem à mostra internacional.

Isso ensina algo muito importante aos estudantes:

a ciência também é construída em rede.

Uma pergunta feita dentro de uma escola pode ser apresentada para outra escola.

  • Depois para pesquisadores.
  • Depois para universidades.
  • E cada conversa pode melhorar o projeto.

 

d) FECIBA: ciência conectada aos problemas do território

Outra experiência interessante ocorre na Bahia.

A Feira de Ciências, Empreendedorismo Social e Inovação da Bahia - FECIBA trabalha projetos de iniciação científica e inovação desenvolvidos por estudantes da rede estadual.

Em 2026, a 14ª edição integra o Encontro Estudantil promovido pela Secretaria da Educação da Bahia.

A proposta enfatiza pensamento científico, crítico e criativo e incentiva projetos comprometidos com o desenvolvimento sustentável dos territórios.

Essa visão combina perfeitamente com o biogás.

Afinal, os projetos podem começar investigando problemas existentes no próprio território:

  • resíduos da escola;
  • resíduos de feiras livres;
  • produção agropecuária;
  • saneamento;
  • desperdício de alimentos;
  • energia;
  • fertilidade do solo;
  • economia circular.

Em vez de apresentar aos estudantes um problema artificial, a escola pode convidá-los a investigar algo que eles enxergam todos os dias.

 

e) FECITBA-PA: Feira de Ciências e Tecnologias Educacionais da Mesorregião do Baixo Amazonas-Pará

A FECITBA-PA é o espaço onde a curiosidade da sala de aula vira projeto de verdade. O objetivo principal é incentivar a cultura científica e a inovação nas escolas da Educação Básica, com um olhar todo especial para a nossa realidade amazônica.

Aqui, os estudantes são os grandes protagonistas e os professores são os guias dessa jornada de investigação.

A FECITBA-PA quer conectar as ideias brilhantes que nascem nas escolas com o ambiente acadêmico da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), mostrando que fazer ciência é para todo mundo.

 

A pesquisa não começa pensando no prêmio

Feiras científicas são importantes porque oferecem visibilidade, troca de experiências, reconhecimento e contato com outros estudantes e pesquisadores.

Mas existe um cuidado fundamental.

O objetivo inicial não deve ser simplesmente “criar um projeto para ganhar uma feira”.

A pergunta deve vir antes do prêmio.

Um bom projeto nasce quando existe:

curiosidade + problema + investigação + método + aprendizado.

O reconhecimento pode surgir depois.

Quando o projeto começa apenas tentando impressionar os avaliadores, existe o risco de inverter o processo educacional.

Mais importante que produzir algo aparentemente complexo é demonstrar que o estudante compreendeu o problema, participou da construção do conhecimento, coletou informações adequadamente e consegue explicar seus resultados.

A própria FEBRACE considera, entre seus critérios, a forma como a pesquisa foi conduzida, o conhecimento científico do tema, a análise dos dados e a clareza da apresentação.

Ciência escolar não precisa começar grande.

Precisa começar bem.

 

O diário do biodigestor pode virar diário de pesquisa

Uma prática simples pode ajudar muito.

No EP23 - Da merenda à energia, sugerimos que as escolas criassem um diário do biodigestor para registrar informações do projeto.

Agora podemos dar um passo adiante.

Esse registro pode se transformar em um diário de pesquisa.

Nele, os alunos podem registrar:

  • o problema observado;
  • as perguntas levantadas;
  • hipóteses;
  • datas das observações;
  • dados coletados;
  • dificuldades encontradas;
  • mudanças realizadas na metodologia;
  • gráficos;
  • fotografias autorizadas;
  • interpretações;
  • novas perguntas.

Isso ajuda o aluno a perceber algo essencial sobre ciência:

o resultado final não aparece pronto.

  • A pesquisa é uma construção.
  • Algumas hipóteses não se confirmam.
  • Alguns dados parecem contraditórios.
  • Novas perguntas aparecem.

E isso também faz parte do aprendizado.

 

Quando os alunos deixam de ser espectadores

No EP 17 - Inovando no ensino sobre biogás, discutimos metodologias capazes de colocar o estudante em uma posição mais ativa durante a aprendizagem.

Este episódio representa uma aplicação direta dessa ideia.

Em vez de o professor chegar à sala com todas as respostas, ele pode chegar com um problema.

O que está acontecendo com os resíduos da nossa escola?

A partir daí, diferentes grupos podem investigar diferentes dimensões:

  • Um grupo estuda geração de resíduos.
  • Outro analisa os dados.
  • Outro pesquisa digestão anaeróbia.
  • Outro acompanha a horta.
  • Outro desenvolve formas de comunicação.
  • Outro estuda impactos ambientais.
  • Depois, os conhecimentos precisam se encontrar.

Essa organização transforma o professor em orientador do processo de investigação e o estudante em participante ativo da produção do conhecimento.

 

Professor: orientador de futuros pesquisadores

No EP 21 - O professor como agente de transformação, destacamos justamente a importância do educador como mediador entre conhecimento e realidade.

Nas Feiras de Ciências, esse papel torna-se ainda mais evidente.

O professor ajuda o estudante a transformar curiosidade em uma pergunta investigável.

Ajuda a diferenciar opinião de evidência.

Questiona interpretações precipitadas.

Ensina a procurar referências confiáveis.

Ajuda a organizar os dados.

Estimula o estudante a reconhecer limitações.

E, talvez o mais importante, evita entregar respostas prontas.

Orientar uma pesquisa significa permitir que o aluno descubra.

As próprias iniciativas de grandes feiras reconhecem essa importância. A FEBRACE busca engajar professores no desenvolvimento de práticas pedagógicas inovadoras, enquanto a MOSTRATEC envolve educadores e instituições em uma ampla rede de iniciação científica.

 

Segurança também faz parte da formação científica

No EP 08 - Biodigestor Laboratório de Ensino, dedicamos uma parte importante à cultura de segurança.

Vale reforçar esse princípio aqui.

Um projeto científico responsável não é aquele que realiza o experimento mais arriscado.

É aquele que reconhece os riscos e estabelece limites adequados.

Em projetos envolvendo biodigestores, resíduos, microrganismos ou equipamentos, atividades práticas precisam ser planejadas pela instituição e acompanhadas por adultos capacitados.

Quando houver risco, os estudantes podem trabalhar com dados provenientes da operação supervisionada, observações seguras, bancos de dados, modelagem, cálculos e simulações.

Essa postura faz parte da própria formação científica.

A FEBRACE, por exemplo, estabelece exigências adicionais para pesquisas envolvendo agentes biológicos potencialmente perigosos, substâncias, atividades ou equipamentos controlados ou perigosos, justamente buscando assegurar a condução adequada e segura das pesquisas.

  • Ensinar ciência também significa ensinar responsabilidade científica.

 

Da investigação para a inovação

No EP 11 - Biogás e Educação Empreendedora: Inspirando Jovens para a Economia Verde, mostramos que projetos de biogás podem estimular criatividade, inovação e identificação de soluções para problemas reais.

Uma Feira de Ciências pode ser justamente o ambiente onde essa conexão aparece.

Durante uma pesquisa, o estudante identifica um problema.

Depois compreende suas causas.

Em seguida começa a imaginar soluções:

  • Talvez seja uma nova maneira de separar os resíduos.
  • Uma ferramenta para registrar dados.
  • Um sensor.
  • Um aplicativo.
  • Uma campanha educativa.
  • Uma solução para a horta.
  • Uma forma de visualização dos indicadores.
  • Um projeto de engenharia.

É nesse momento que investigação científica e inovação começam a se encontrar.

Não precisamos exigir que cada trabalho escolar produza uma startup.

Mas podemos ensinar os estudantes a perceber que conhecimento também pode gerar soluções.

 

Uma pequena pesquisa pode despertar uma grande carreira

No EP 15 - Formação profissional para o setor de biogás e biometano, discutimos como a educação pode preparar novas gerações para uma economia cada vez mais conectada à sustentabilidade, bioeconomia, energia renovável e economia circular.

  • Mas como alguém descobre que gosta de ciência?
  • Como um jovem percebe que talvez queira estudar Engenharia?
  • Biotecnologia?
  • Química?
  • Agronomia?
  • Microbiologia?
  • Energia?
  • Ciência de Dados?
  • Computação?

 

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Foto: Biodigestores em Pequena Escala (Dois Irmãos - RS, 2009). A curiosidade que iniciou a partir de um projetos de iniciação cientítica para  XIX Salão de Iniciação Científica, 2007 foi início de uma jornada até o doutorado em engenharia. Na foto, em 2009, da esquerda para direita: José de Souza (atual Diretor Executivo da Fundação Liberato, fundação responsável pela realização da MOSTRATEC - Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia) e Heleno Quevedo (Pesquisador no Senai Distrito Tecnológico, SP).

 

Muitas vezes, essa descoberta começa experimentando:

  • Um estudante pode começar contando quilos de resíduos produzidos pela escola.
  • Depois aprende a construir gráficos.
  • Quer entender por que os números mudam.
  • Descobre a microbiologia.
  • Começa a pesquisar biodigestores.
  • Conhece a engenharia.
  • Apresenta um trabalho em uma feira.
  • Conversa com pesquisadores.
  • Visita uma universidade.
  • E uma pergunta aparentemente pequena começa a influenciar um projeto de vida.
  • É por isso que Feiras de Ciências têm importância muito maior do que simplesmente expor trabalhos em estandes.

Elas permitem que os jovens se enxerguem como pessoas capazes de produzir conhecimento.

 

Do resíduo ao conhecimento

No EP23 - Da merenda à energia: construindo uma escola circular com biogás, propusemos um ciclo:

merenda → resíduos → biodigestor → biogás → biofertilizante → horta → alimento.

Agora podemos acrescentar um segundo ciclo:

observação → pergunta → hipótese → investigação → dados → conhecimento → comunicação → novas perguntas.

Os dois podem acontecer simultaneamente dentro de uma escola.

Enquanto o biodigestor transforma matéria orgânica, o projeto educacional transforma curiosidade em conhecimento.

Talvez essa seja uma das características mais interessantes do conceito de Biogás nas Escolas.

Não estamos falando apenas de ensinar como funciona um biodigestor.

Estamos falando de utilizar um problema real para ensinar os estudantes a pensar.

 

Um convite às escolas

Se sua escola possui um biodigestor, talvez já exista um laboratório de Ciências funcionando diante dos alunos.

É possível começar perguntando:

Que dados estamos produzindo e ainda não estamos utilizando para ensinar?

Se a escola ainda não possui um biodigestor, isso não impede a realização de projetos relacionados ao tema.

Os estudantes podem investigar os resíduos gerados pela própria instituição, estudar rotas de valorização, trabalhar com dados, desenvolver modelos digitais, pesquisar projetos existentes, realizar avaliações ambientais ou propor soluções conceituais.

O mais importante é começar pelo problema:

  • Observar
  • Perguntar
  • Pesquisar
  • Medir
  • Analisar
  • Comunicar
  • E perguntar novamente

Quem sabe o próximo projeto apresentado na FEBRACE, na MOSTRATEC, na FECIBA, na FECITBA-PA , em uma feira municipal ou na própria Feira de Ciências da escola não comece justamente com uma pergunta sobre biogás?

 

Considerações Finais

No EP 22 - Aprendizados que transformam, conhecimento que conecta, encerramos 2025 reforçando que educação é também capacidade de estabelecer conexões.

O episódio de hoje talvez seja uma demonstração concreta dessa ideia.

  • O resíduo conecta-se à energia.
  • A energia conecta-se à microbiologia.
  • A microbiologia conecta-se à Matemática.
  • A Matemática conecta-se aos dados.
  • Os dados conectam-se à ciência.
  • A ciência conecta-se à engenharia.
  • A engenharia conecta-se à inovação.

E tudo isso pode começar dentro de uma escola.

No último episódio perguntamos:

E se o restante da merenda não terminasse no lixo, mas se transformasse em uma aula sobre energia, ciência e sustentabilidade?

Hoje acrescentamos outra pergunta:

E se essa aula se transformasse em uma pesquisa?

  • Talvez seja assim que nasce um projeto para uma Feira de Ciências.
  • Talvez seja assim que nasce uma inovação.
  • E talvez seja assim que nasce um futuro cientista, engenheiro, pesquisador ou profissional da bioeconomia.

Do biodigestor à Feira de Ciências, o biogás pode transformar resíduos em energia e curiosidade em conhecimento.

Até o próximo Sábado de Biogás & Educação.

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