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Lançamento do livro Resíduos Sólidos Urbanos e Vinhaça

Livro lançado na Fenasucro 2026 mostra como resíduos sólidos urbanos e vinhaça podem ampliar a produção de biometano, recuperar nutrientes e impulsionar a economia circular no Brasil. Acesse e saiba mais!

Redação Energia e Biogás
Redação Energia e Biogás
Publicado em 26 de ago, 2026
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Lançamento do livro Resíduos Sólidos Urbanos e Vinhaça
Foto: Divulgação Editora Blucher com apoio da FAPESP

Livro lançado na Fenasucro propõe integrar resíduos urbanos e vinhaça para ampliar produção de biometano no Brasil

 

Nova obra de Antonio Carlos Dourado Barros da Rocha, Luís Augusto Barbosa Cortez e Jorge de Lucas Junior aproxima duas cadeias que raramente são analisadas em conjunto e mostra como resíduos sólidos urbanos e vinhaça podem contribuir para uma nova geografia da produção de biometano, fertilizantes e redução de emissões no país.

O que o lixo produzido diariamente pelas cidades brasileiras tem em comum com a vinhaça gerada pelas usinas de etanol de cana-de-açúcar?

À primeira vista, são resíduos pertencentes a mundos completamente diferentes. De um lado estão os municípios, a coleta de lixo, os sistemas de tratamento e os aterros sanitários. Do outro, as usinas, os canaviais, a produção de açúcar e etanol e os grandes volumes de vinhaça resultantes da atividade sucroenergética.

O livro Resíduos sólidos urbanos e vinhaça: reconciliando energia, fertilizantes e meio ambiente propõe justamente olhar para essas duas cadeias de maneira integrada.

Lançada em 12 de agosto de 2026, durante a Fenasucro & Agrocana, em Sertãozinho (SP), a obra é assinada por Antonio Carlos Dourado Barros da Rocha, Luís Augusto Barbosa Cortez e Jorge de Lucas Junior e publicada pela Editora Blucher com apoio da FAPESP. O lançamento integrou a programação dedicada ao biometano realizada durante a feira.

A questão central apresentada pelos autores é relativamente simples de compreender, embora tecnicamente desafiadora: e se parte da matéria orgânica hoje destinada a sistemas convencionais de gestão de resíduos pudesse ser tratada em conjunto ou de forma integrada com correntes orgânicas provenientes do setor sucroenergético?

A resposta passa pela digestão anaeróbia.

 

Duas cadeias diferentes, um problema em comum: matéria orgânica

A vinhaça é um efluente gerado em grandes volumes durante a produção do etanol. Rica em matéria orgânica e nutrientes, tradicionalmente é reaproveitada no setor sucroenergético principalmente por meio da fertirrigação.

Já os resíduos sólidos urbanos contêm uma fração orgânica formada por restos de alimentos e outros materiais biodegradáveis. Quando essa matéria orgânica é simplesmente encaminhada para disposição final, perde-se a oportunidade de recuperar parte da energia e dos nutrientes nela existentes.

É justamente essa mudança de perspectiva que orienta o livro.

Em vez de considerar esses fluxos apenas como algo que precisa ser descartado ou tratado, os autores os analisam como matérias-primas capazes de gerar novos produtos.

Por meio da digestão anaeróbia, microrganismos degradam a matéria orgânica na ausência de oxigênio e produzem biogás. Depois de purificado, esse gás pode dar origem ao biometano, combustível renovável com características que permitem sua utilização em diversas aplicações tradicionalmente atendidas pelo gás natural.

O processo também gera um material residual rico em nutrientes, o digestato, abrindo possibilidades para recuperação e reciclagem de nutrientes.

A própria apresentação editorial da obra destaca a comparação entre o enterramento da matéria orgânica, a fertirrigação convencional e alternativas baseadas na codigestão anaeróbia, associando a recuperação dos resíduos à produção de biometano, redução de emissões e obtenção de fertilizantes organominerais.

 

O ponto mais interessante: conectar a cidade à usina

Talvez a principal contribuição conceitual do livro esteja justamente em não analisar cada resíduo isoladamente.

Ao longo de 12 capítulos temáticos, a publicação começa discutindo os resíduos sólidos urbanos e as experiências brasileiras de gestão, passa pelo aproveitamento desses resíduos para produção de biometano e, posteriormente, mergulha na cadeia da vinhaça: sua geração, fertirrigação, biodigestão e outras possibilidades de utilização.

A partir daí ocorre a convergência.

Os capítulos finais tratam diretamente da integração entre o biometano proveniente de resíduos sólidos urbanos e o biometano da vinhaça, das contribuições ambientais dessa estratégia e de possibilidades ainda mais amplas envolvendo vinhaça, resíduos urbanos, etanol de milho e dejetos da pecuária.

A conclusão dos autores resume uma das ideias mais provocativas da obra: explorar essas sinergias pode ampliar não apenas a quantidade de biometano produzida, mas também multiplicar os locais onde ele poderia ser produzido.

Esse raciocínio pode ter implicações importantes para o desenvolvimento do mercado brasileiro.

Em muitas regiões produtoras de cana-de-açúcar existem, relativamente próximas umas das outras, usinas, cidades, propriedades rurais, agroindústrias e diferentes fontes de resíduos orgânicos. Em vez de planejar cada fluxo isoladamente, surge a possibilidade de enxergar o território como um ecossistema de produção de biogás e recuperação de recursos.

 

Uma possível nova geografia do biometano

Esse é um aspecto particularmente relevante para a divulgação científica da obra.

O biometano não precisa ser entendido apenas como um produto gerado dentro dos limites físicos de uma usina ou de um aterro sanitário. A proposta de integração permite discutir arranjos territoriais nos quais diferentes fontes de matéria orgânica podem contribuir para uma infraestrutura regional de produção e consumo de gás renovável.

A discussão já aparece também nas pesquisas apresentadas durante a própria Fenasucro 2026. Em painel realizado no evento, pesquisadores destacaram a complementaridade entre a vinhaça da cana e a fração orgânica dos resíduos sólidos urbanos, considerando tanto a disponibilidade dos resíduos quanto as características específicas de cada região.

Há ainda outro fator importante: a sazonalidade.

A produção de vinhaça acompanha a operação das usinas e, portanto, está relacionada ao período de safra. A disponibilidade de resíduos urbanos, por outro lado, ocorre durante todo o ano. Outros substratos agrícolas, agroindustriais e pecuários apresentam calendários próprios.

É daí que nasce uma questão estratégica: seria possível combinar diferentes biomassas e resíduos para tornar a produção regional de biogás e biometano mais contínua ao longo do ano?

O livro coloca essa discussão em evidência ao ampliar, no capítulo 11, a análise para a sinergia entre RSU, vinhaça de cana-de-açúcar, etanol de milho e estrume de gado.

Não basta colocar os resíduos dentro de um biodigestor

A proposta, entretanto, não deve ser interpretada como simplesmente misturar diferentes resíduos.

Do ponto de vista da engenharia, transformar esse conceito em projetos reais exige solucionar uma série de questões.

No caso dos resíduos sólidos urbanos, é fundamental separar adequadamente a fração orgânica dos materiais recicláveis, rejeitos e contaminantes. Depois vêm operações como preparação, eventual pré-tratamento, transporte e alimentação dos sistemas de digestão anaeróbia.

A vinhaça apresenta desafios diferentes, relacionados ao grande volume gerado, baixa concentração de sólidos, composição, logística e características da operação industrial.

A codigestão precisa ainda considerar parâmetros como carga orgânica, relação entre substratos, nutrientes disponíveis, estabilidade microbiológica, tempo de retenção, produção de metano e características do digestato.

Ou seja: a sinergia territorial pode ser atraente, mas precisa ser demonstrada tecnicamente, economicamente e ambientalmente em cada contexto regional.

É justamente por isso que obras como esta são relevantes. Elas ajudam a deslocar a discussão do simples “potencial energético dos resíduos” para uma pergunta mais madura: como organizar cadeias capazes de transformar esse potencial em projetos efetivamente implantáveis?

 

Energia, fertilizantes e saneamento na mesma equação

Outro mérito da obra é não limitar a discussão à quantidade de gás produzida.

Seu próprio subtítulo, “reconciliando energia, fertilizantes e meio ambiente”, revela uma abordagem mais ampla.

Quando a matéria orgânica é submetida à digestão anaeróbia, parte de sua energia pode ser convertida em biogás, enquanto uma parcela importante dos nutrientes permanece no digestato.

Isso significa que o mesmo sistema pode ser analisado sob três perspectivas simultâneas: tratamento de resíduos, produção energética e reciclagem de nutrientes.

Essa integração aproxima áreas que muitas vezes trabalham separadamente: saneamento, agronomia, bioenergia, gestão municipal de resíduos, indústria sucroenergética e políticas de descarbonização.

É economia circular em seu sentido mais concreto: evitar que carbono, energia e nutrientes percorram uma trajetória linear até se transformarem em desperdício e buscar reinseri-los nos ciclos produtivos.

A FAPESP descreve a proposta justamente como uma tentativa de conciliar geração de energia renovável, produção de fertilizantes e preservação ambiental, ressaltando também os possíveis modelos de negócio envolvendo iniciativa privada, destilarias e municípios.

 

Um livro construído por diferentes experiências

Os três autores trazem trajetórias que ajudam a explicar a abordagem multidisciplinar da publicação.

  • Antonio Carlos Dourado Barros da Rocha possui mais de quatro décadas de experiência em energia e gestão de resíduos, incluindo projetos de aproveitamento energético, estudos de digestão anaeróbia, biometano, viabilidade técnico-econômica e políticas públicas.
  • Luís Augusto Barbosa Cortez, engenheiro agrícola e pesquisador da Unicamp, construiu uma extensa trajetória na área de energia e bioenergia. Participou da criação de iniciativas importantes da pesquisa brasileira em bioenergia e atualmente coordena o Centro de Ciência para o Desenvolvimento do Etanol (CCD Etanol), apoiado pela FAPESP.
  • Jorge de Lucas Junior, engenheiro agrônomo e professor titular aposentado da Unesp, pesquisa manejo de resíduos e digestão anaeróbia desde 1979 e recebeu, em 2017, o título de Pesquisador Emérito do CNPq.

A combinação dessas experiências ajuda a explicar por que o livro transita entre engenharia, agricultura, resíduos, energia, políticas públicas e modelos de negócio.

 

Mais do que tratar resíduos, criar novas cadeias produtivas

Talvez a principal provocação deixada pela obra seja uma mudança na própria pergunta que fazemos sobre os resíduos.

Em vez de perguntar apenas “onde devemos colocar esse material?”, a economia circular exige perguntar:

“Que energia, nutrientes e produtos ainda podemos recuperar antes que esse material seja definitivamente descartado?”

Aplicado ao setor brasileiro de biogás, esse raciocínio ganha especial importância.

O país reúne simultaneamente grandes centros urbanos, uma enorme agroindústria, produção expressiva de proteína animal, forte setor sucroenergético e crescente demanda por combustíveis de menor intensidade de carbono.

Conectar essas cadeias pode representar mais do que aumentar a produção de biogás.

Pode significar aproximar municípios, usinas, produtores rurais, empresas de saneamento, distribuidoras de gás, operadores logísticos e consumidores industriais em torno de novos projetos regionais.

Nesse sentido, Resíduos sólidos urbanos e vinhaça não apresenta apenas uma discussão sobre duas biomassas.

A obra coloca sobre a mesa uma questão muito maior:

e se parte da próxima expansão do biometano brasileiro surgir justamente da conexão entre resíduos que hoje pertencem a cadeias econômicas diferentes?

Essa talvez seja uma das discussões mais importantes abertas pelo livro, e um convite para pesquisadores, gestores públicos, engenheiros, investidores e empresas começarem a olhar para os resíduos não isoladamente, mas como componentes de uma nova infraestrutura de bioenergia e circularidade.

 

 


Sobre a obra

Resíduos sólidos urbanos e vinhaça: reconciliando energia, fertilizantes e meio ambiente
Antonio Carlos Dourado Barros da Rocha, Luís Augusto Barbosa Cortez e Jorge de Lucas Junior
Editora Blucher | 1ª edição | 2026

A edição impressa possui 216 páginas, ISBN 978-85-212-3121-9. A edição eletrônica Open Access é identificada pelo ISBN 978-85-212-3119-6, possui 218 páginas em sua paginação digital e DOI 10.5151/9788521231196.

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